Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 41
Descansam um pouco, até que ela vai buscar o cinto que está em cima do oratório. O padre despe as calças e mostra as nádegas gordas, engelhadas, com pregas avermelhadas por onde escorre o suor como se pingasse das goteiras do telhado. Dobra-se e fica de gatas, com as meias vestidas e a camisa branca, com as nádegas cheias de cicatrizes velhas misturadas com feridas frescas. O padre só manda parar Miss Stela quando sente uma espécie de luz à sua volta e está prestes a desmaiar. Isso tem a particularidade de o deixar com um sorriso ligeiro — além da tal aura luminosa muito parecida com aquela que Santa Teresa de Ávila emanava — e um sexo firmemente ereto, pronto a cavalgar até ao sol com as suas veias salientes, que é o que fazem depois, tarde fora, tarde dentro.
O quarto do padre está cheio de gravuras religiosas, um calendário com o
Imaculado Coração de Jesus, vários registos e crucifixos de madeira com alguns anos e algum valor artístico. O teto tem um céu estrelado pintado, e no chão há uma Nossa Senhora de Fátima com um metro e quarenta de altura, cabeça ligeiramente inclinada para o lado e olhos dirigidos ao alto. Nas mãos de porcelana tem mais de trinta rosários pendurados, de todos os tipos e proveniências, de metal, de madeira, de plástico.
Enquanto Miss Stela se veste, o padre fuma um cigarro, de bruços, pois não
consegue estar deitado de costas. Apoiado nos cotovelos, observa Miss Stela a vestir-se. O padre é o único a apreciar o oposto da arte de Miss Stela: vestir-se em vez de despir-se. Pergunta:
— Voltas na quarta?
— Não.
— Por quê?
— Tenho coisas.
— Que coisas?
— Tenho de ajudar a que Jerusalém desabe no meio do Alentejo. O padre levanta as sobrancelhas e apaga o cigarro. Miss Stela ri-se. — A Antónia, aquela a quem morreram o filho e o marido... — Sei muito bem quem é.
— Ela não quer morrer antes de visitar a Terra Santa, por isso a neta, a Rosa, e
o professor Borja vão levá-la à aldeia da inglesa e vão dizer que aquilo é Jerusalém.
— Que parvoíce é essa?
— Vão disfarçar a aldeia com letreiros em hebraico e vestir as pessoas com
trajes do Médio Oriente. Ela não vai perceber, está meio parada, não ouve, não sai daquele monte há mais de trinta anos, senão para ir à missa e ao centro de saúde ou ao hospital. Vai acreditar e acho que é uma bonita prenda para se dar a uma avó. É o seu maior desejo.
— É uma imbecilidade tão grande que não tenho palavras. Deus os perdoe pela
estupidez.
Miss Stela diz que, de qualquer modo, estupidez ou não, vai andar ocupada, vai
ter outras coisas em que pensar. O padre faz um gesto de enfado com a mão enquanto Miss Stela sai do quarto, caminha até à porta de entrada e sai para a rua. O padre tenta levantar-se, mas ainda não consegue. Olha para o relógio que tem na mesa de cabeceira e calcula o tempo que demorará a conseguir sair da cama. A espera enfurece-o um pouco, como, aliás, é costume. Vira a cabeça para trás, para ver os novos estragos feitos à sua retaguarda, e faz uma careta. Encosta a cabeça aos braços e adormece assim, acordando uma hora depois. Devagar, muito devagar, vai deslizando da cama, fazendo os possíveis por não se dobrar na cintura. Passa um pouco de pomada nas feridas e na carne irritada, enrola um pano nos quadris, passando-o pelas virilhas, e veste as calças engolindo uns gritos de dor. Veste a batina por cima, olha-se ao espelho e penteia-se. Depois de ouvir aquela história, há algo que precisa de ser feito. Não esperará por domingo para falar com Antónia sobre aquele plano ridículo. Antes do fim de semana, passará pelo monte.