Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 14
O velho Fartaria arranja os cardos com uma luva, separando os caules das folhas bicudas. Olha para Rosa quando a vê passar na estrada. Um camião surge na curva e buzina. Fartaria estende o braço para saudar o motorista e depois volta a concentrar-se nos cardos.
Quando Rosa chega a casa, está lá um homem vestido com um fato cinzento,
calvo, sentado em frente à avó. Também lá está Amélia, encostada à lareira, sentada num mocho, com as mãos pousadas no avental. Foi ela que levou Santos & Santos até ao monte de Antónia — sabendo das dificuldades que passavam avó e neta, encontrou aquilo que lhe pareceu uma boa solução. Amélia tira as mãos do avental para se levantar e começar a falar, explica que aquele senhor será a salvação de ambas, será como Jesus. Rosa irá trabalhar na casa dele, terá comida e cama e poderá trazer algum dinheiro para o lar. O homem sorri. O cheiro a perfume inunda as narinas de Rosa, os dedos dele tamborilam nos braços da cadeira. São dedos gordos e Rosa pensa: detesto dedos gordos, pois têm as unhas amareladas e depois agarram-nos de uma maneira mole. Lembro-me dos dedos do meu pai, que eram tão magros, cheios de ossos, duros como pedras da calçada. Eram dedos honestos que sabiam agarrar as coisas. Tenho medo de que tudo caia, de que as loiças caiam, de que a alma caia, tenho medo de que as mãos assim não saibam agarrar a gente e se parta tudo no chão.
— É uma bela casa, na cidade — diz Santos & Santos. — O quê? — pergunta Antónia.
— É UMA BELA CASA — grita Amélia. E a velha baixa a cabeça, enquanto
esfrega as mãos de nervosismo.
Santos & Santos levanta-se e manda sentar Amélia. — Precisamos de uma empregada. Temos outra jovem como tu, Rosa, e está
muito feliz lá em casa. Tem mais uns cinco ou seis anos e tenho a certeza de que irás gostar dela, é muito dedicada, trabalhadora e séria.
Rosa vai para ao pé da avó, que levanta a cabeça. Antónia tem uma ramela nos
olhos, e Rosa molha os dedos e tira-a. De seguida, agarra as mãos da avó e esta sorri. Rosa não consegue evitar chorar.
— Ao princípio vai ser difícil — diz Amélia —, mas será pelo melhor. A tua avó
já não consegue trabalhar a horta e vocês não podem viver só da caridade. Eu virei aqui todos os dias para a ajudar no que for preciso, podes ficar descansada.
Amélia é a vizinha mais próxima, a sua casa fica a oitocentos metros do monte
de Antónia. Durante a ditadura, serviu um PIDE, um homem baixo, também fisicamente. Ele costumava levar prisioneiros para a sua casa de campo, torturava-os com o chilrear dos pássaros ao fundo e incumbia Amélia de os alimentar. Quando se deu a revolução, o homem desapareceu e Amélia ficou a viver naquela casa juntamente com um prisioneiro. Foi alimentando o homem, longe das notícias que o haveriam de ter libertado. Passados dois anos, percebeu que as coisas haviam mudado e decidiu, depois de algumas noites sem dormir, libertar o prisioneiro. Não sabia se estava a fazer bem ou mal. Ele, quando lhe foi aberta a porta, preferiu ficar; certamente por falta de perspectiva, mas esta relutância em abraçar a liberdade também poderá ter como explicação a síndrome de Estocolmo, essa paixão que desenvolvemos por quem nos prende. O homem havia-se habituado aos barulhos dos grilos e das rãs e ao cheiro a madeira dos móveis velhos que havia pela casa e, claro, a Amélia. Na verdade, quando esta o libertou, ele tomou isso como um insulto: a prisão é uma forma de amor, quer dizer que não queremos que o objeto da paixão se afaste de nós. Libertá-lo é o fim, é o desinteresse. Mas Amélia, depois de o libertar, continuou a alimentá-lo, mais por hábito do que por generosidade ou culpa. Casaram-se no ano seguinte, numa cerimônia simples em que Antónia foi uma das testemunhas.
— Eu trato da tua avó, não te preocupes, Rosa — diz ela. — Vai — diz a avó, com os olhos todos cheios de lágrimas e as mãos a tremer,
cheias de veias e sangue velho.
Rosa começa a gritar, agarrada às pernas da avó, dizendo que não quer ir. Que
não quer ir. Que não quer ir. Que não quer ir.
Mas as pernas da avó não são o suficiente para a salvar, e Rosa vai, como a
água da chuva.