Jesus Cristo Bebia Cerveja
Capítulo 34
Todos os olhares estão parados no corpo que se mexe. Miss Stela move as ancas gordas como o trigo a crescer pelos campos, com uma naturalidade difícil de explicar cientificamente. Atira caramelos espanhóis para o público, atira beijos e olhares. Os homens mordem a língua, bebem vinho e sentem o coração a coxear. Ela aproxima-se de um homem careca, de barba por fazer, e de costas para ele inclina-se para a frente, como se procurasse um alfinete no chão, enquanto a sua parte de trás se abana ritmadamente. O homem encosta as mãos ao corpo, para não as deixar sair dali em liberdade. Miss Stela continua à procura do alfinete que não existe, sabe perfeitamente que o erotismo depende muito destas pequenas coisas, destas ficções, de coisas que não existem.
Arménio levanta-se, dá uma volta sobre si mesmo, e aterra no chão levando
consigo um copo cheio que se parte. Fica ensopado de vinho, mas nem repara. Ergue-se e começa a caminhar em direção a Miss Stela, cambaleando. Quando se aproxima, ela dá-lhe com um sapato. O salto bate-lhe na cabeça e tira-lhe um bocado de pele, deixando-o a sangrar. Arménio não sente nada, nem quando o sapato lhe bate na boca e lhe arranca um bocado de carne, salpicando sangue em volta. O público ri-se, mas quando António, o segurança, se aproxima, já ninguém sabe rir. António, que é magro e baixo e ossudo, pega em Arménio com uma mão e atira-o contra o chão. Arménio bate com a cabeça nas lajes, com o braço esquerdo torcido debaixo do corpo. Miss Stela grita com o segurança porque este demorou demasiado tempo a reagir, mas o homem não liga. O público, apesar de Miss Stela continuar nua no meio das mesas, já só tem olhos para o modo como António espanca Arménio. Um dente salta para junto do homem careca, que afasta o pé, olhando em frente e levando o copo aos lábios. António leva Arménio para a rua.
— Precisa de apanhar ar, este.
Miss Stela senta-se numa cadeira a beber um whisky. Ainda está nua, de pernas
cruzadas, e só com um sapato calçado. O professor entra nessa altura e dirige-se para a mesa da stripper. Senta-se e pede uma cerveja. O empregado põe um copo à frente dele, mas o professor, com um gesto da mão direita, diz-lhe que não precisa, e começa a beber da garrafa.
— Da garrafa é mais fresca, não é?
Miss Stela sorri enquanto coça a axila. Os lábios grossos deixam ver uns dentes
certinhos como livros numa estante. Os seus olhos são enrugados, meio desprendidos, sempre semicerrados. Tem um sinal junto aos lábios e um cigarro na ponta dos dedos.
O professor Borja lembra-se bem da primeira vez que a viu. Rodrigues Filho
tinha-o convidado:
— Vamos mas é ao Avião onde há uma mulher que sabe abrir as pernas. Eu
pago os copos.
— Não gosto dessas mulheres, sabes bem... — respondeu o professor. — Vais ver que gostas desta. As mulheres são boas seja qual for o sexo. Tu és
como eu, exatamente como eu, gostas de mulheres e pronto.
— Mas esses lugares, esses strips, isso é bom é para burgueses decadentes. Eu
sou um intelectual do povo, estás a ver? A minha única parte capitalista são os bolsos. O resto é completamente de esquerda. Não vou.
Mas acabou por ir e, ao ver aquela decadência burguesa de pernas abertas, ficou
fascinado pelo capitalismo.
— Estás fascinado pela burguesia — disse-lhe Rodrigues Filho. — Não sei o que dizer. Sou um homem do povo, um operário da Ciência e da História, um materialista ateu. Para mim, o contrário de fazer o bem é fazer um bom negócio. Sempre fui assim. E agora isto...
— Esquece isso, pá. Isso é política. Aqui dentro não há nada disso, só se revela
a verdade, de pernas abertas, nua e crua. O resto é política, são mentiras.
— És bem capaz de ter razão. Eu ainda não tinha dois anos e já não me
interessava nada por política. És bem capaz de ter razão.
E depois dessa primeira experiência, o professor tornou-se um dos mais
assíduos frequentadores do Avião.
— Preciso de um favor — pede a Miss Stela. — Desde que tenhas dinheiro.
— Não é desses.
— É de quais?
Miss Stela encosta o copo às mamas. O gelo do whisky fá-la arrepiar-se
ligeiramente.
— Conheço uma rapariga que precisa deste avião. Para fazer a última vontade
da avó, que quer ir à Terra Santa. Temos de fingir que a levamos lá e, para isso, precisamos de simular a viagem de avião.
— Ha, ha, ha! Que loucura. Estás parvo?
— Vamos transformar a aldeia da inglesa em Jerusalém. — E aquilo parece-se com a Terra Santa, por acaso? — Faremos com que fique parecida. Mas preciso da tua ajuda para fazer a velha
viajar de avião até Jerusalém.
— E o que é que queres que eu faça? Isto é um bar, já não levanta voo. Enquanto o professor leva a garrafa à boca, Miss Stela passa o indicador, cheio
de verniz vermelho, pelas bordas do copo.
— Não precisa de levantar voo. Nós adormecemos a velha com comprimidos ou
isso. Mas ela tem de ver o avião. Temos de lhe dar um ar minimamente credível.
— Se ela vai estar a dormir, do que é que precisas? O professor sorri antes de falar.
— Tens de tirar os letreiros.
— Isso arranja-se. Mas o espetáculo e os clientes fica tudo na mesma. O
António tira os letreiros. As luzes ficam.
— Sim, as luzes podem ficar, mas os letreiros têm mesmo de sair. Fico a
dever-te um grande favor.
— Pois ficas.