Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 7 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra VIII.

 

 

Marilia, de que te queixas?

De que te roube Dirceo

O sincero coração?

Não te deo tambem o seu?

E tu, Marilia, primeiro

Não lhe lançaste o grilhão?

Todos amão: só Marilia

Desta Lei da Natureza

Queria ter izenção?

Em torno das castas pombas

Não rulão ternos pombinhos?

E rulão, Marilia, em vão?

Não se afagão c'os biquinhos?

E a provas de mais ternura

Não os arrasta a paixão?

Todos amão: só Marilia

Desta Lei da Natureza

Queria, ter izenção?

Já viste, minha Marilia,

Avezinhas, que não fação

Os seus ninhos no verão?

Aquellas com quem se enlação

Não vão cantar-lhe defronte

Do molle pouzo em que estão?

Todos amão: só Marilia

Desta Lei da Natureza

Queria ter izenção?

Se os peixes, Marilia, gerão

Nos bravos mares, e rios,

Tudo effeitos de Amor são.

Amão os brutos impios,

A serpente venenosa,

A Onça, o Tigre, o Leão.

Todos amão: só Marilia

Desta Lei da Natureza

Queria ter izenção?

As grandes Deosas do Ceo,

Sentem a setta tyranna

Da amorosa inclinação.

Diana, com ser Diana,

Não se abrasa, não suspira

Pelo amor de Endymão?

Todos amão: só Marilia

Desta Lei da Natureza

Queria ter izençao?

Desiste, Marilia bella,

De huma queixa sustentada

Só na altiva opinião.

Esta chamma he inspirada

Pelo Ceo; pois nella assenta

A nossa conservação.

Todos amão: só Marilia

Desta Lei da Natureza

Não deve ter izenção.