Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 15 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XVI.

 

Eu, Glauceste, não duvido

Ser a tua Eulina amada

Pastora formosa,

Pastora engraçada.

Vejo a sua côr de rosa,

Vejo o seu olhar divino,

Vejo os seus purpùreos beiços,

Vejo o peito crystallino;

Nem ha cousa, que assemelhe

Ao crespo cabello louro.

Ah! que a tua Eulina vale,

Vale hum immenso thesouro!

Ella vence muito, e muito

Á laranjeira copada,

Estando de flores,

E frutos ornada.

He, Glauceste, os teus Amores;

E nem por outra Pastora,

Que menos dotes tivera,

Ou que menos bella fôra, O meu Glauceste cançára

As divinas cordas de ouro.

Ah! que a tua Eulina vale,

Val hum immenso thesouro!

Sim, Eulina he huma Deosa;

Mas anîma a formosura

De huma alma de féra,

Ou inda mais dura.

Ah! quando Alceo pondéra

Que o seu Glauceste suspira,

Perde, perde o soffrimento,

E qual enfermo delira!

Tenha embora brancas faces,

Meigos olhos, fios de ouro,

A tua Eulina não vale,

Não vale immenso thesouro.

O fuzil, que imita a cobra,

Tambem aos olhos he bello;

Mas quando alumêa,

Tu tremes de velo.

Que importa se mostre chêa

De mil bellezas a ingrata?

Não se julga formosura

A formosura, que mata.

Evita, Glauceste, evita

O teu estrago, e desdouro;

A tua Eulina não vale,

Não vale immenso thesouro.

A minha Marilia quanto

Á natureza não deve!

Tem divino rosto,

E tem mãos de neve.

Se mostro na face o gôsto,

Ri-se Marilia contente:

Se canto, canta comigo;

E apenas triste me sente,

Limpa os olhos com as tranças

Do fino cabello louro.

A minha Marilia vale,

Vale hum immenso thesouro.