Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 45 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XIII.

 

 

Ves, Marilia, hum cordeiro

De flores enramado,

Como alegre caminha

A ser sacrificado?

O Povo para o Templo já concorre:

A Pyra sacro-santa já se accende:

O Ministro o fere, elle bala, e morre.

Vês agora o novilho,

A quem segura o laço:

No chão as mãos especa:

Nem quer mover hum passo:

Não conhece que sahe de hum máo terreno; Que o forte pulso, que a seguir o arrasta, O conduz a viver n'um campo ameno.

Ignora o bruto, como

Lhe dispomos a sorte:

Hum vai forçado á vida,

Vai outro alegre á morte,

Nós temos, minha bella, igual demencia:

Não sabemos os fins, com que nos move A sábia, occulta Mão da Providencia.

De Jacob ao bom filho

Os máos matar quizerão:

De conselho mudárão,

Como escravo o vendêrão:

José não corre a ser hum servo afflito:

Vai subindo os degráos, por onde chega

A ser hum quasi Rei no grande Egypto.

Quem sabe se o Destino

Hoje, ó bella, me prende,

Só porque nisto de outros

Mais damnos me defende?

Póde inda raiar hum claro dia.

Mas quer raie, quer não, ao Ceo adoro;

E beijo a santa mão, que assim me guia.