Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 28 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XXIX.

 

O tyranno Amor risonho

Me apparece, e me convida

Para que seu jugo acceite;

E quer que eu passe em deleite

O resto da triste vida.

O sonoro Anacreonte (Astuto o moço dizia) Já perto da morte

estava, Inda de amores cantava; Por isso alegre vivia.

Aos negros, duros pezares

Não resiste hum peito fraco,

Se Amor o não fortalece:

O mesmo Jove carece

De Cupido, e mais de Baccho.

Eu lhe respondo: Perjuro

Nada creio ao que dizes;

Porque já te fui sujeito,

Inda conservo no peito

Estas frescas cicatrizes.

Amor, vendo que da offerta

Algum apreço não faço,

Me diz affoito que trate

De ir com elle a combate

Peito a peito, braço a braço.

Vou buscar as minhas armas;

Cinjo primeiro que tudo

O brilhante arnêz, e á pressa

Ponho hum elmo na cabeça,

Tomo a lança, e o grosso escudo.

Mal no Campo me apresento,

Marilia (oh Ceos!) me apparece:

Logo os olhos me fita,

O meu coração palpita,

A minha mão desfallece.

Então me diz o tyranno:

Confessa louco o teu erro;

Contra as armas da belleza

Não vale a externa defeza.

Dessa armadura de ferro.