Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 48 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XVI.

 

Vejo, Marilia,

Que o nédeo gado

Anda disperso

No monte, e prado;

Que assim succede

Ao desgraçado,

Que a perder chega

O seu Pastor.

Mas inda soffro

A viva dôr.

Tambem conheço,

Que os Pegureiros,

Que apascentavão

Os meus cordeiros,

Darão suspiros

E verdadeiros;

Porque perdêrão

Hum pai no amor.

Mas inda soffro

A viva dôr.

Eu mais alcanço;

Que a minha herdade

Estando eu prezo,

Soffrer não ha-de

Nem a charrua,

E nem a grade;

Que a mão lhe falta

Do Lavrador.

Mas inda soffro

A viva dôr.

Mas quando sobe

Á minha idéa,

Que tu ficaste

Lá nessa Aldêa.

De mil cuidados

E mágoa cheia;

Das paixões minhas

Não sou senhor.

Eu já não soffro

A viva dôr.

A quanto chega

A pena forte!

Peza-me a vida,

Desejo a morte,

A Jove accuso,

Maldigo a sorte,

Trato a Cupido

Por hum traidor.

Eu já não soffro

A viva dôr.

Mas este excesso

Perdão merece,

E delle Jove

Se compadece;

Que Jove, ó bella,

Mui bem conhece,

Aonde chega

Paixão de amor.

Eu já não soffro

A viva dôr.