Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 78 de 90

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Marilia de Dirceo

Soneto IV.

 

 

Ainda que de Laura esteja ausente,

Ha de a chama durar no peito amante;

Que existe retratado o seu semblante,

Se não nos olhos meus, na minha mente.

Mil vezes finjo vêla, e eternamente

Abraço a sombra vã; só nesse instante

Conheço que ella está de mim distante,

Que tudo he illusão que esta alma sente.

Talvez que ao bem de a vêr Amor resista;

Porque minha paixão, que aos Ceos he grata, Por innocente assim melhor persista:

Pois quando só na idéa ma retrata,

Debuxa os dotes com que prende vista,

Esconde as obras com que offende ingrata.