Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 37 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra V.

 

Os mares, minha bella, não se movem;

O brando Norte assopra, nem diviso

Huma nuvem sequer na Esfera toda,

O destro Nauta aqui não he preciso;

Eu só conduzo a náo, eu só modéro

Do seu governo a roda.

Mas ah! que o Sul carrega, o mar se empolla,

Rasga-se a véla, o mastaréo se parte!

Qualquer varão prudente aqui já teme

Não tenho a necessaria força, e arte.

Corra o sabio Piloto, corra, e venha

Reger o duro leme.

Como succede á náo no mar, succede

Aos homens na ventura, e na desgraça:

Basta ao feliz não ter total demencia,

Mas quem de venturoso a triste passa,

Deve entregar o leme do discurso

Nas mãos da sã prudencia.

Todo o Ceo se cubrio, os raios chovem;

E esta alma, em tanta pena consternada, Nem sabe aonde possa achar conforto.

Ah, não, não tardes, vem, Marilia amada, Toma o leme da náo, marêa o panno,

Vai-a salvar no porto.

Mas ouço já de Amor as sabias vozes:

Elle me diz que soffra se não morro;

E perco então se morro huns doces laços. Não quero já, Marilia, mais soccorro,

Oh ditoso soffrer, que lucrar póde

A gloria dos teus braços.