Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 70 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra V.

 

Eu não sou, minha Nize, pegureiro,

Que viva de guardar alhêo gado;

Nem sou pastor grosseiro

Dos frios gêlos, e do Sol queimado,

Que veste as pardas lãs do seu cordeiro.

Graças, ó Nize bella,

Graças á minha Estrella!

A Cresso não igualo no thesouro:

Mas deo-me a Sorte com que honrado viva.

Não cinjo corôa d'ouro;

Mas Póvos mando, e na testa altiva

Verdeja a Corôa do Sagrado Louro.

Graças, ó Nize bella,

Graças á minha Estrella!

Maldito seja aquelle, que só trata

De contar escondido a vil riqueza!

Que cego se arrebata

Em buscar nos Avós a vã nobreza,

Com que aos mais homens seus iguaes abata.

Graças, ó Nize bella,

Graças á minha Estrella!

As fortunas que em torno de mim vejo,

Por falsos bens que enganão não reputo;

Mas antes mais desejo,

Não para me voltar soberbo em bruto

Por vêr-me grande quando a mão te beijo.

Graças, ó Nize bella,

Graças á minha Estrella!

Pela Ninfa que jaz vertida em Louro,

O grande Deos Apollo não delira?

Jove mudado em Touro,

E já mudado em Velha não suspira?

Seguir aos Deoses nunca foi desdouro.

Graças, ó Nize bella,

Graças á minha Estrella.

Pertendão Hanibaes honrar a Historia,

E cinjão com a mão de sangue chêa

Os louros da victoria.

Eu revolvo os teus dons na minha idéa:

Só dons que vem do Ceo são minha gloria.

Graças, ó Nize bella,

Graças á minha Estrella!