Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 23 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XXIV.

 

Encheo, minha Marilia, o grande Jove

De immensos animaes de toda a especie

As terras, mais os ares,

O grande espaço dos salobros rios,

Dos negros, fundos mares.

Para sua defeza,

A todos dêo as armas, que convinha;

Á sabia Natureza.

Dêo as azas aos passaros ligeiros;

Dêo ao peixe escamoso as barbatanas:

Dêo veneno á serpente,

Ao membrudo Elefante a enorme tromba,

E ao Javali o dente.

Coube ao leão a garra:

Com leve pé saltando o servo foge;

E o bravo touro marra.

Ao homem dêo as armas do discurso

Que valem muito mais que as outras armas:

Dêo-lhe dedos ligeiros, Que podem converter em seu serviço

Os ferros, e os madeiros;

Que tecem fortes laços,

E forjão raios com que aos brutos cortão

Os vôos, mais os passos.

Ás timidas donzellas pertencerão

Outras armas, que tem dobrada força:

Dêo-lhes a Natureza

Além do entendimento, além dos braços

As armas da belleza.

Só ella ao Ceo se atreve,

Só ella mudar póde o gello em fogo,

Mudar o fogo em neve.

Eu vejo, eu vejo ser a formosura

Quem arrancou da mão de Coriolano

A cortadora espada.

Vejo que foi de Helena o lindo rosto

Quem pôz em campo armada

Toda a força de Grecia.

E quem tirou o Sceptro aos Reis de Roma,

Só foi, só foi Lucrecia.

Se podem lindos rostos, mal suspirão,

O braço desarmar do mesmo Achilles;

Se estes rostos irados

Podem soprar o fogo da descordia

Em póvos alliados;

Hes arbitra da terra;

Tu pódes dar, Marilia, a todo o mundo

A paz, e a dura guerra.