Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 69 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra IV.

 

Amor por acaso

A hum pouso chegava,

Aonde accolhida

A Morte se achava.

Risonhos, e alegres

Os braços se dérão,

E as armas unidas

N'um sitio pozerão.

De emprezas tamanhas

Cansados já vinhão,

E em larga conversa

A noite entretinhão.

Hum conta que ha pouco

A seta aguçada

Em huma belleza

Deixára empregada.

Diz outro que as flexas

Cravára no peito De hum grande, que teve

O Mundo sujeito.

Em quanto das forças

Cada hum persumia,

Seus membros já laços

O somno rendia.

Dormindo tranquillos

A noite passárão,

E inda antes da Aurora

Com ancia acordárão.

He tempo que o leito

Deixemos, ó Morte;

Amor, já erguido

Fallou desta sorte.

He tempo, em resposta A morte repete, Que á nossa fadiga

Dormir não compete.

As armas colhamos,

Voltemos ao giro:

Cada hum a seu gosto

Empregue o seu tiro.

Vão inda c'os olhos

Em somno turbados,

Ao sitio em que os ferros

Estão pendurados.

Amor para as setas

Da morte se enclina:

De amor logo a Morte

C'o as flexas atina.

Oh golpes tyrannos!

Oh mãos homicidas!

São tiros da Morte

De Amor as feridas.

De hum sonho, que pinto,

Marilia conhece,

Se amor, ou se morte

Este alma padece.