Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 74 de 90

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Marilia de Dirceo

Canção.

 

Dês que vi, formosa Elvira,

Os teus divinos cabellos,

Esses vivos olhos bellos,

Que invéja dos astros são,

Foi-se, Elvira, foi-se embora

Toda a paz do coração.

E talvez, talvez que Elvira

Nem se lembre de que Alceo,

Se suspira,

Se delira,

He só por motivo seu.

Em quanto, Elvira, se occulta

A meus olhos teu semblante,

Hum minuto, hum breve instante

Parece que fim não tem.

Se alcanço de vêr-te a gloria,

Então vôa o tempo bem.

E talvez, talvez que Elvira

Nem se lembre de que Alceo,

Se suspira,

Se delira,

He só por motivo seu.

Quando te ris por acaso

Para outro qualquer sugeito,

Estala dentro do peito

De ciume o coração:

Se me pões os olhos julgo

Que zombas de mim então.

E talvez, talvez que Elvira

Nem se lembre de que Alceo,

Se suspira,

Se delira,

He só por motivo seu.

Quando ha brinco na floresta,

E a divina Olaia canta,

O mesmo gado levanta

A cabeça para ouvir.

Só por mais que Alceo forceje

Não póde o prazer fingir.

E talvez, talvez que Elvira

Nem se lembre de que Alceo,

Se suspira,

Se delira,

He só por motivo seu.

Quando levo á clara fonte

O rebanho do meu gado,

Cáhe-me da mão o cajado,

E com ella á testa vou:

Fico pasmado, e ignoro

O lugar aonde estou.

E talvez, talvez que Elvira

Nem se lembre de que Alceo,

Se suspira,

Se delira,

He só por motivo seu.

Quando vou segar o trigo,

(Olha bem como ando cego.)

N'uma parte nelle pego,

Metto n'outra a fouce em vão;

Dos que vem alguns se riem,

Outros mostrão compaixão.

E talvez, talvez que Elvira

Nem se lembre de que Alceo,

Se suspira,

Se delira,

He só por motivo seu.

Quando me deito no colmo,

Sempre sonho que te vejo,

Que te fallo, e que te beijo

A branca nevada mão.

Acórdo, Pastora, e foges:

Eu fico mais triste então.

E talvez, talvez que Elvira

Nem se lembre de que Alceo,

Se suspira,

Se delira,

He só por motivo seu.

Quando alguem meu mal pergunta,

Bem que seja a vez primeira,

Rompo ainda que não queira

O segredo sem saber.

O teu nome, Elvira, digo,

Quando devo o seu dizer.

E talvez, talvez que Elvira

Nem se lembre de que Alceo,

Se suspira,

Se delira,

He só por motivo seu.

Fujo ao trato dos pastores,

Para hum bosque me retiro;

Com desafogo suspiro,

E chamo por ti meu bem.

Os valles que se enternecem

Chamão-te ao longe tambem.

E talvez, talvez que Elvira

Nem se lembre de que Alceo,

Se suspira,

Se delira,

He só por motivo seu.

Quando escuto o triste mocho

A gemer no meu telhado,

Qualquer mal excogitado

Não me deve algum temor:

Só receio que me agoure

Máo successo ao meu amor.

E talvez, talvez que Elvira

Nem se lembre de que Alceo

Se suspira,

Se delira,

He só por motivo seu.

Os pastores que me avistão

Com o dedo já me apontão,

E á roda do fogo contão

Da maneira que me vem.

Sou o exemplo dos amantes

Que esta nossa Aldêa tem.

E talvez, talvez que Elvira

Nem se lembre de que Alceo,

Se suspira,

Se delira,

He só por motivo seu.