Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 64 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XXXII.

 

Se o vasto mar se encapella,

E na rócha em flor rebenta,

Grossa náo, q' não tem léme,

Em vão sustentar-se intenta;

Até que naufraga, e corre

Á discrição da tormenta.

Quem não tem huma Belleza,

Em que ponha o seu cuidado,

Se o Ceo se cobre de nuvens,

E se assopra o vento irado,

Não tem forças que resistão

Ao impulso do seu fado.

Nesta sombria masmorra,

Aonde, Marilia, vivo,

Encosto na mão o rosto,

Fico ás vezes pensativo.

Ah! que imagens tão funestas

Me finge o pezar activo.

Parece que vejo a honra,

Marilia, toda enlutada,

A face de hum pai rugosa,

N'um mar de pranto banhada,

Os amigos mascilentos,

E a familia consternada.

Quero voltar os meus olhos

Para outro diverso lado,

Vejo n'uã grande Praça

Hum Theatro levantado.

Vejo as Cruzes, vejo os Potros,

Vejo o Alfanje afiado.

Hum frio suor me cobre,

Lação-se os membros, suspiro,

Busco allivio ás minhas ancias,

Não o descubro, deliro.

Já, meu Bem, já me parece,

Que nas mãos da morte espiro.

Vem-me então ao pensamento

A tua testa nevada,

Os teus meigos, vivos olhos,

A tua face rosada,

Os teus dentes crystallinos,

A tua boca engraçada.

Qual, Marilia, a estrella d'alva,

Que a negra noite affugenta,

Qual o Sol, que a nevoa espalha

Apenas a terra aquenta, Ou qual Iris, que o Ceo limpa,

Quando se vê na tormenta.

Assim, Marilia, desterro

Triste illusão, e demencia;

Faz de novo o seu officio,

A razão, e a prudencia;

E firmo esperanças doces

Sobre a candida innocencia.

Restauro as forças perdidas,

Sóbe a viva côr ao rosto;

Gyra o sangue pela vêa,

E bate o pulso composto.

Vê, Marilia, o quanto póde

Contra os meus males teu rosto.

FIM.