Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 61 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XXIX.

 

 

Eu descubro procurar-me

Gentil mancebo, e loiro,

Trazia a testa adornada

Com folhas de verde loiro.

Vejo ser o Pai das Musas,

E me entrega a lyra d'oiro.

Já basta, me diz, ó filho,

Já basta de sentimento;

O cançado peixe exige

Hum breve contentamento.

Louva a formosa Marilia

Ao som do meu instrumento.

Firo as cordas; mas que importa?

A dôr não socega em tanto.

Ergo a voz, então reparo

Que quanto mais corre o pranto

He mais doce, e mais sonoro

Meu terno, e saudoso canto.

Apollo fitou os olhos

Na mão, que regía o braço;

E depois de estar suspenso,

De me houvir hum largo espaço;

Assim diz: o Deos Cupido

Faz inda mais do que eu faço.

Eu te dou a minha lyra,

Louva, louva a tua Bella;

Porém vê que ta concedo

Com condição, e cautella…

Eu lhe corto a voz, dizendo,

Que só canto em honra della.