Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 36 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra IV.

 

 

Já, já me vai, Marilia, branquejando

Loiro cabello, que circúla a testa.

Este mesmo, que alveja, vai cahindo,

E pouco já me resta.

As faces vão perdendo as vivas côres,

E vão-se sobre os ossos enrugando,

Vai fugindo a viveza dos meus olhos;

Tudo se vai mudando.

Se quero levantar-me, as costas vergão;

As forças dos meus membros já se gastão, Vou a dar pela casa huns curtos passos,

Pesão-me os pés, e arrastão.

Se algum dia me vires desta sorte,

Vê que assim me não pôz a mão dos annos: Os trabalhos, Marilia, os sentimentos,

Fazem os meus danos.

Mal te vir me dará em poucos dias,

A minha mocidade o doce gosto;

Verás burnir-se a pelle, o corpo encher-se,

Voltar a côr ao rosto.

No calmoso Verão as plantas seccão,

Na Primavera, que aos mortaes encanta, Apenas cahe do Ceo o fresco orvalho,

Verdeja logo a planta.

A doença deforma a quem padece;

Mas logo que a doença fez seu termo,

Torna, Marilia, a ser quem era d'antes,

O definhado enfermo.

Suppo[~e]-me qual doente, ou qual a planta,

No meio da desgraça, que me altera:

Eu tambem te supponho qual saude,

Ou qual a Primavera.

Se dão esses teus meigos, vivos olhos

Aos mesmos Astros luz, e vida ás flores;

Que effeitos não farão, em quem por elles

Sempre morrêo de amores?