Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 53 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XXI.

 

Que diversas que são, Marilia, as horas

Que passo na masmorra immunda, e fêa, Dessas horas felizes, já passadas

Na tua patria Aldêa.

Então eu me ajuntava com Glauceste;

E á sombra de alto Cédro na Campina

Eu versos te compunha, e elle os compunha

Á sua cara Eulina.

Cada qual o seu canto aos Astros leva;

De exceder hum ao outro qualquer trata

O ecco agora diz: Marilia terna;

E logo: Eulina ingrata.

Deixão os mesmos Sátyros as grutas:

Hum para nós ligeiro move os passos;

Ouve-nos de mais perto, e faz a flauta

C'os pés em mil pedaços.

Dirceo (clama hum Pastor,) ah! bem merece

Da ternissima Marilia a formosura.

E aonde, clama o outro, quer Eulina

Achar maior ventura?

Nenhum Pastor cuidava do rebanho,

Em quanto em nós durava esta porfia.

E ella, ó minha amada, só findava

Depois de acabar-se o dia.

Á noite te escrevia na cabana

Os versos, que de tarde havia feito;

Mal tos dava, e os lias, os guardavas

No casto, e branco peito.

Beijando os dedos dessa mão formosa,

Banhados com as lagrimas do gosto,

Jurava não cantar mais outras graças

Que as graças do teu rosto.

Ainda não quebrei o juramento.

Eu agora, Marilia, não as canto;

Mas inda vale mais que os doces versos

A voz do triste pranto.