Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 5 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra VI.

 

 

Oh! quanto póde em nós a varia Estrella! Que diversos que são os genios nossos!

Qual solta a branca vélla,

E affronta sobre o pinho os mares grossos. Qual cinge com a malha o peito duro;

E marchando na frente das cohortes,

Faz a toare voar, cahir o muro.

O sordido avarento em vão trabalha,

Que possa o filho entrar no seu Thesouro.

Aqui fechado estende

Sobre a taboa, que verga, as barras de ouro. Sacode o jogador da copo os dados;

E n'uma noite só, que ao somno rouba,

Perde o resto dos bens do pai herdados.

O que da voráz gulla o vicio adora

Da lauta meza os prazeres fia.

E o terno Alceste chora

Ao som dos versos a que o genio o guia. O sabio Gallileo toma o compasso, E sem voar ao Ceo, calcula, e mede

Das Estrellas, e Sol o immenso espaço.

Em quanto pois, Marilia, a varia gente,

Se deixa conduzir do proprio gosto;

Passo as horas contente

Notando as graças do teu lindo rosto.

Sem cansar-me a saber se o Sol se móve, Ou se a terra voltea, assim conheço.

Aonde chega a mão do grande Jove.

Noto, gentil Marilia, os teus cabellos;

E noto as faces de Jasmins, e rosas:

Noto os teus olhos bellos;

Os brancos dentes, e as feições mimosas. Quem fez huma obra tão perfeita, e linda, Minha bella Marilia, tambem póde

Fazer os Ceos, e mais, se ha mais ainda.