Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 11 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XII.

 

 

Topei hum dia

Ao Deos vendado,

Que descuidado

Não tinha as settas

Na impia mão.

Mal o conheço,

Me sóbe logo

Ao rosto o fogo,

Que a raiva accende

No coração.

Morre, Tyranno,

Morre, inimigo!

Mal isto digo,

Raivoso o apérto

Nos braços meus.

Tanto que o moço

Sente apertar-se,

Para salvar-se

Tambem me aperta

Nos braços seus.

O leve corpo

Ao ar levanto,

Ah! e com quanto

Impulso o trago

Do ar ao chão!

Poude suster-se

A vez primeira;

Mas á terceira

Nos pés, que alarga,

Se firma em vão.

Mal o derrubo,

Ferro aguçado

No já cançado

Peito, que arqueja,

Mil golpes deo.

Suou seu corpo;

Tremêo gemendo;

E á côr perdendo,

Batêo as azas;

Em fim morreo.

Qual bravo Alcides,

Que a hirsuta pelle

Vestio daquelle

Grenhoso bruto,

A quem matou.

Para que próve

A empreza honrada,

C'o a mão manchada Recolho as settas,

Que me deixou.

Ouvio Marilia

Que Amor gritava,

E como estava

Vizinha ao sitio

Valer-lhe vem.

Mas quando chega

Espavorida,

Nem já de vida

O féro monstro

Indicio tem.

Então Marilia,

Que o vê de perto

De pó cuberto,

E todo involto

No sangue seu;

As mãos aperta

No peito brando,

E afflicta dando

Hum ai, os olhos

Levanta ao Ceo.

Chega-se a elle

Compadecida;

Lava a ferida

C'o pranto amargo,

Que deramou.

Então o monstro Dando hum suspiro,

Fazendo hum gyro

C'o a baça vista,

Resuscitou.

Respira a Deosa;

E vem o gosto

Fazer no rosto

O mesmo effeito,

Que fez a dôr.

Que louca idéa

Foi a que tive!

Em quanto vive

Marilia bella,

Não morre Amor.