Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 57 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XXV.

 

Minha Marilia,

O passarinho,

A quem roubárão

Ovos, e ninho,

Mil vezes pousa

No seu raminho,

Piando finge

Que anda a chorar.

Mas logo vôa

Pela espessura,

Nem mais procura

Este lugar.

Se acaso a vacca

Perde a vitéla,

Tambem nos mostra,

Que se desvéla,

O pasto deixa,

Muge por ella,

Até na estrada

A vem buscar.

Em poucos dias,

Ao que parece,

Della se esquece,

E vai pastar.

O voraz Tempo,

Que o ferro come,

Que aos mesmos Reinos

Devora o nome,

Tambem, Marilia,

Tambem consome

Dentro do peito

Qualquer pezar.

Ah só não póde

Ao meu tormento

Por hum momento

Allivio dar.

Tambem, ó bella,

Não ha quem viva

Instantes breves

Na chamma activa;

Derrete ao bronze

Sendo excessiva

Ao mesmo seixo

Faz estalar.

Mas do amianto

A fêbra dura

Na chamma atura

Sem se queimar.

Tambem, Marilia,

Não ha quem negue,

Que bem que o fogo

Nos oleos pegue,

Que bem que em lingoas

Ás nuvens chegue,

Á força d'agoa

Se ha de apagar.

Se a negra pedra

Nós accendemos,

Com agoa a vemos

Mais s'inflammar.

O meu discurso,

Marilia, he resto:

A pena iguala

Ao meu affecto.

O amor que nutro

Ao teu aspecto,

E o teu semblante

He singular.

Ah! nem o tempo,

Nem inda a morte

A dôr tão forte

Pode acabar.