Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 38 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra VI.

 

De que te queixas,

Lingua importuna?

De que a Fortuna

Roubar-te queira,

O que te deu?

Este foi sempre

O genio seu.

Levou, Marilia,

A impia sorte

Catoens á morte;

Nem sepultura

Lhes concedeu.

Este foi sempre

O genio seu.

A outros muitos,

Que vís nascêrão,

Nem merecêrão,

A grandes thronos

A impia ergueu.

Este foi sempre

O genio seu.

Espalha a cega

Sobre os humanos

Os bens, e os damnos;

E a quem se devão

Nunca escolheu.

Este foi sempre

O genio seu.

A quanto he justo,

Já mais se dobra;

Nem igual obra

C'os mesmos Deoses

Do cáro Ceo.

Este foi sempre

O genio seu.

Sóbe ao Ceo Venus

N'hum carro ufano;

E cahe Vulcano

Da pura esfera,

Em que nasceu.

Este foi sempre

O genio seu.

Mas não me rouba,

Bem que se mude,

Honra, e virtude:

Que o mais he della,

Mas isto he meu.

Este foi sempre

O genio seu.