Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 43 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XI.

 

Se acaso não estou no fundo Averno

Padece, ó minha bella, sim padece

O peito amante, e terno,

As afflições tyrannas, que os Preceitos

Arbîtra Rhadamantho em justa pena

Dos barbaros delictos.

As Furias infernaes, rangendo os dentes

Com a mão descarnada não me applicão

As raivosas serpentes.

Mas cercão-me outros monstros mais irados: Mordem-me sem cessar as bravas serpes

De mil, e mil cuidados.

Eu não gasto, Marilia, a vida toda

Em lançar o penedo da montanha;

Ou em mover a roda.

Mas tenho ainda mais cruel tormento:

Por coisas que me affligem, roda, e gyra

Cançado pensamento.

Com retorcidas unhas agarrado

Ás tepidas entranhas não me come

Hum abutre esfaimado.

Mas sinto de outro monstro a crueldade:

Devora o coração, que mal palpita,

O abutre da saudade.

Não vejo os pomos, nem as aguas vejo,

Que de mim se retirão, quando busco

Fartar o meu desejo;

Mas quer, Marilia, o meu destino ingrato,

Que lograr-te não possa, estando vendo

Nesta alma o teu retrato.

Estou no Inferno, estou, Marilia bella;

E n'huma coisa só he mais humana

A minha dura estrella:

Huns não podem mover do Inferno os passos; Eu pertendo vôar, e vôar cedo

Á gloria dos teus braços.