Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 56 de 90

Páginas do PDF

Marilia de Dirceo

Lyra XXIV.

 

Eu vou, Marilia, vou brigar co' as feras:

Huma soltárão, eu lhe sinto os passos,

Aqui aqui a espero

Nestes despidos braços.

He hum malhado tigre; a mim já corre,

Ao peito o aperto, estalão-lhe as costelas, Desfallece, cahe, urra, treme, e morre.

Vem agora hum Leão: sacode a grenha,

Com faminta paixão a mim se lança;

Venha embora, que o pulso

Ainda não se cança.

Opprimo-lhe a garganta, a lingua estira,

O corpo lhe fraquêa, os olhos inchão,

Açoita o chão convulso, arqueja, e espira.

Mas que vejo, Marilia! tu te assustas?

Entendes que os destinos inhumanos

Expoem a minha vida

No cêrco dos Romanos?

Com ursos, e com onças eu não luto.

Luto c'o bravo monstro que me accusa;

Que os tigres, e leões mais féro, e bruto.

Embora contra mim raivoso esgrima

Da vil calumnia a cortadora espada;

Huma alma, qual eu tenho,

Não se recêa a nada.

Eu hei-de, sim, punir-lhe a insolencia,

Pizar-lhe o negro cóllo, abrir-lhe o peito

Co' as armas invenciveis da innocencia.

Ah, quando imaginar, que vingativo

Mando que desça ao Tartaro profundo

Hei-de com mão honrada

Erguer-lhe o corpo immundo.

Eu então lhe direi: Infame, indîno,

Obras como costuma o vil humano;

Faço o que faz hum coraçao divino.