Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 17 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XVIII.

 

 

Não ves aquelle velho respeitavel,

Que á moleta encostado,

Apenas mal se move, e mal se arrasta?

Oh quanto estrago não lhe fez o tempo?

O tempo arrebatado,

Que o mesmo bronze gasta.

Enrugárão-se as faces, e perdêrão

Seus olhos a viveza;

Voltou-se o seu cabello em branca neve:

Já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo;

Nem tem huma belleza

Das bellezas que teve.

Assim tambem serei, minha Marilia

Daqui a poucos annos;

Que o impio tempo para todos corre.

Os dentes cahiráõ, e os meus cabellos.

Ah! sentirei os damnos,

Que evita só quem morre.

Mas sempre passarei huma velhice

Muito menos penoza.

Não trarei a moleta carregada:

Descançarei o já vergado corpo

Na tua mão piedoza,

Na tua mão nevada.

As frias tardes em que negra nuvem

Os chuveiros não lance,

Irei comtigo ao prado florescente:

Aqui me buscarás hum sitio ameno,

Onde os membros descance,

E ao brando Sol me aquente.

Apenas me sentar, então movendo

Os olhos por aquella

Vistoza parte, que ficar fronteira;

Apontando direi: Alli fallámos,

Alli, ó minha bella,

Te vi a vez primeira.

Verteráõ os meus olhos duas fontes,

Nascidas de alegria:

Farão teus olhos ternos outro tanto:

Então darei, Marilia, frios beijos,

Na mão formosa, e pia,

Que me limpar o pranto.

Assim irá, Marilia, docemente

Meu corpo supportando

Do tempo deshumano a dura guerra.

Contente morrerei, por ser Marilia

Quem sentida chorando,

Meus baços olhos cerra.