Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 46 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XIV.

 

Alma digna de mil Avós Augustos!

Tu sentes, tu soluças

Ao ver cahir os justos;

Honras as santas leis da Humanidade:

E aos teus exemplos deve

Gravar com letras de oiro no seu Templo

A candida Amizade.

Não he, não he de Heróe huma alma forte,

Que vê com rosto enchuto

No seu igual a morte.

Não he tambem de Heróe hum peito duro,

Que a sua gloria firma,

Em que lhe não resiste ao ferro, e fogo,

Nem legião, nem muro.

Oh! quanto ousado Chefe me namora,

Quando vê a cabeça

Do bom Pompeo, e chora!

He grande para mim, quem move os passos,

E de Dario aos filhos, Que como escravos seus tratar podéra,

Recebe nos seus braços.

Se alcança Eneas, Capitão piedoso,

Entre os Heróes do Mundo

Hum nome glorioso,

Não he, porque levanta huma cidade;

He sim, porque nos hombros

Salvou do incendio ao Pai a quem detinha

A mão da branca idade.

Ah! se ao meu contrario entre as chãmas vira; Eu mesmo, sim, da morte

Aos hombros o remira:

Inda por elle muito mais obrára:

E se nada servisse,

Fizera então, Amigo, o que fizeste,

Gemêra, e suspirára.

Oh! quanto são duraveis as cadêas

De huma amizade, quando

Se dão iguaes idéas!

Se a pezar dos estorvos se sustinha

Nossa união sincera,

Foi por ser a minha alma igual á tua,

E a tua igual á minha.

Se, ó caro Amigo, te merece tanto,

Lá lhe fica a sua alma,

Limpa-lhe o terno pranto.

De quem eu fallo, és tu, Marilia bella.

Ah! sim, honrado Amigo, Se enxugar não poderes os seus olhos;

Prantêa então com ella.