Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 59 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XXVII.

 

A minha amada

He mais formosa

Que branco lyrio,

Dobrada rosa,

Que o cinnamomo,

Quando matiza

Co' a folha a flor.

Venus não chega

Ao meu Amor.

Vasta campina

De trigo chêa,

Quando na sésta

C'o vento ondêa,

Ao seu cabello

Quando flutua

Não he igual.

Tem a côr negra:

Mas quanto val!

Os astros, que andão

Na esfera pura,

Quando scintilão

Na noite escura,

Não são humanos,

Tão lindos, como

Seus olhos são.

Que ao Sol excedem

Na luz que dão.

Ás brancas faces,

Ah! não se atreve

Jasmis de Italia,

Nem inda a neve,

Quando a desata

O Sol brilhante

Com seu calôr.

São neve, e causão

No peito ardôr.

Na breve boca

Vejo enlaçadas

As finas per'las

Com as granadas;

A par dos beiços

Rubins da India

Tem preço vil.

Nelles se agarrão

Amores mil.

Se não lhe désse

Compadecido

Tanto soccorro

O Deos Cupido;

Se não vivêra

Huma esperança

No peito seu;

Já morto estava

O bom Dirceo.

Vê quanto póde

Teu bello rosto;

E de goza-lo

O vivo gosto!

Que sobmergido

Em hum tormento

Quasi infernal,

Porqu' inda espero

Resisto ao mal.