Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 8 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra IX.

 

Eu sou, gentil Marilia, eu sou captivo,

Porém não me venceo a mão armada

De ferro, e de furor:

Huma alma sobre todas elevada

Não cede a outra força que não seja

Á tenra mão de Amor.

Arrastem pois os outros muito embora

Cadêas nas bigornas trabalhadas

Com pezados martellos:

Eu tenho as minhas mãos ao carro atadas Com duros ferros não, com fios d'ouro,

Que são os teus cabellos.

Occulto nos teus meigos vivos olhos

Cupido a tudo faz tyranna guerra:

Sacode a setta ardente;

E sendo despedida cá da terra,

As nuvens rompe, chega ao alto Impirio,

E chega ainda quente.

As abelhas nas azas suspendidas

Tirão, Marilia, os succos saborosos

Das orvalhadas flores:

Pendentes dos teus beiços graciosos

Ambrosias chupão, chupão mil feitiços

Nunca fartos Amores.

O vento quando parte em largas fitas

As folhas, que menêa com brandura;

A fonte crystallina,

Que sobre as pedras cáe de immensa altura; Não fórma hum som tão doce, como fórma

A tua voz divina.

Em torno dos teus peitos, que palpitão;

Exalão mil suspiros desvelados

Enchames de desejos;

Se encontrão os teus olhos descuidados, Por mais que se atropelem, voão, chegão,

E dão furtivos beijos.

O Cisne, quando corta o manso lago,

Erguendo as brancas azas, e o pescoço;

A Náo que ao longe passa,

Quando o vento lhe infuna o panno grosso; O teu garbo não tem, minha Marilia,

Não tem a tua graça.

Estimem pois os mais a liberdade:

Eu prézo o captiveiro: sim, nem chamo

Á mão de Amor impia:

Honro a virtude, e os teus dotes amo:

Tambem o grande Achilles veste a saia

Tambem Alcides fia.