Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 39 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra VII.

 

 

Meu prezado Glauceste,

Se fazes o conceito,

Que bem que réo abrigo

A candida virtude no meu peito.

Se julgas, digo, que mereço ainda

Da tua mão soccorro;

Ah! vem dar-m'o agora,

Agora sim que morro.

Não quero, que montado

No Pegaso fogoso,

Venhas com dura lança

Ao monstro infame traspassar raivoso.

Deixa que viva a perfida calumnia,

E forge o meu tormento:

Com menos, meu Glauceste,

Com menos me contento.

Toma a lyra doirada,

E toca hum pouco nella:

Levanta a vóz celeste Em parte que te escute a minha bella;

Enche todo o contorno de alegria;

Não soffras, que o desgosto

Affogue em pranto amargo

O seu divino rosto.

Eu sei, eu sei, Glauceste,

Que hum bom Cantor havia,

Que os brutos amansava;

Que os troncos, e os penedos attrahia.

De outro destro Cantor tambem affirma;

A sábia Antiguidade,

Que as muralhas erguêra

De huma grande Cidade.

Orfeo as cordas fere;

O som delgado, e terno

Ao Rei Plutão abranda,

E o deixa que penetre o fundo Averno.

Ah, tu a nenhum cedes, nem Glauceste;

Na lyra, e mais no canto:

Podes fazer prodigios;

Obrar ou mais, ou tanto.

Levanta pois as vozes:

Que mais, que mais esperas?

Consola hum peito afflito;

Que he menos inda, que domar as féras. Com isto me darás no meu tormento

Hum doce lenitivo,

Que em quanto a bella vive,

Tambem, Glauceste, vivo.