Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 77 de 90

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Marilia de Dirceo

Soneto III.

 

Enganei-me, enganei-me, paciencia;

Accreditei as vozes, cri, Ormia,

Que a tua singeleza igualaria

Á tua mais que angelica apparencia.

Enganei-me, enganei-me, paciencia;

Ao menos conheci que não devia,

Pôr nas mãos de huma externa galhardia O prazer, o socego, e a innocencia.

Enganei-me, Cruel, com teu semblante,

E nada me admiro de faltares,

Que esse teu sexo nunca foi constante.

Mas tu perdestes mais em me enganares;

Que tu não acharás hum firme amante,

E eu posso de traidoras ter milhares.