Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 51 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XIX.

 

Nesta triste masmorra,

De hum semivivo corpo sepultura,

Inda, Marilia, adoro

A tua formosura.

Amor na minha idéa te retrata,

Busca extremoso, que eu assim resista

Á dôr immensa, que me cerca, e mata.

Quando em meu mal pondero,

Então mais vivamente te diviso:

Vejo o teu rosto, e escuto

A tua voz, e riso.

Movo ligeiro para o vulto os passos:

Eu beijo a tibia luz em vez de face;

E aperto sobre o peito em vão os braços.

Conheço a illusão minha;

A violencia da mágoa não supporto;

Foge-me a vista, e caio

Não sei se vivo, ou morto.

Enternece-se Amor de estrago tanto; Reclina-me no peito, e com mão terna

Me limpa os olhos do salgado pranto.

Despois que represento

Por largo espaço a imagem de hum defunto,

Movo os membros, suspiro,

E onde estou pergunto.

Conheço então que Amor me tem comsigo; Ergo a cabeça, que inda mal sustento,

E com doente voz assim lhe digo.

Se queres ser piedoso,

Procura o sitio em que Marilia móra,

Pinta-lhe o meu estrago,

E vê, Amor, se chora.

Se as lagrimas verter a dôr a arrasta,

Huma dellas me traze sobre as pennas,

E para allivio meu só isto basta.