Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 3 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra IV.

 

Marilia, teus olhos

São réos, e culpados,

Que soffra, e que beije

Os ferros pezados

De injusto Senhor.

Marilia, escuta

Hum triste Pastor.

Mal vi o teu rosto,

O sangue gelou-se,

A lingoa prendeo-se,

Tremi, e mudou-se

Das faces a côr.

Marilia, escuta

Hum triste Pastor.

A vista furtiva,

O risco imperfeito,

Fizerão a chaga,

Que abriste no peito

Mais funda, e maior.

Marilia, escuta

Hum triste Pastor.

Dispuz-me a servir-te;

Levava o teu gado

Á fonte mais clara,

Á vargem, e prado

De relva melhor.

Marilia, escuta

Hum triste Pastor.

Se vinha da herdade,

Trazia nos ninhos

As aves nascidas,

Abrindo os biquinhos

De fome ou temor.

Marilia, escuta

Hum triste Pastor.

Se alguem te louvava

De gosto me enchia;

Mas sempre o ciume

No rosto accendia

Hum vivo calor.

Marilia, escuta

Hum triste Pastor.

Se estavas alegre,

Dirceo se alegrava;

Se estavas sentida,

Dirceo suspirava

Á força da dor.

Marilia, escuta

Hum triste Pastor.

Fallando com Laura,

Marilia dizia;

Surria-se aquella,

E eu conhecia

O erro de amor.

Marilia, escuta

Hum triste Pastor.

Movida, Marilia,

De tanta ternura,

Nos braços me déste,

Da tua fé pura

Hum doce penhor.

Marilia, escuta

Hum triste Pastor.

Tu mesma disseste

Que tudo podia

Mudar de figura;

Mas nunca seria

Teu peito traidor.

Marilia, escuta

Hum triste Pastor.

Tu já te mudaste;

E a Olaia frondoza,

Aonde escreveste

A jura horrorosa,

Tem todo o vigor.

Marilia, escuta

Hum triste Pastor.

Mas eu te desculpo,

Que o fado tyranno

Te obriga a deixar-me;

Pois busca o meu damno

Da sorte, que for.

Marilia, escuta

Hum triste Pastor.