Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 66 de 90

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Marilia de Dirceo

Marilia de Dirceo. Lyra I.

MARILIA DE DIRCEO.

LYRA I.

 

Convidou-me a vêr seu Templo

O cego Cupido hum dia;

Encheo-se de gosto o peito,

Fiz deste Deos hum conceito

Como delle não fazia.

Aqui vejo descorados

Os ternissimos amantes

Entre as cadêas gemerem;

Vejo nas piras arderem

As entranhas palpitantes.

A quem ama quanto avista,

(Diz Cupido) não aterra:

Quem quer cingir o loureiro,

Tambem vai soffrer primeiro

Todo o trabalho da guerra.

Com tudo que te dilates

Neste sitio não convenho;

Deixa a estancia lastimosa, Vem vêr a Salla formosa,

Aonde o meu Solio tenho.

Entro n'outro grande Templo:

Que perspectiva tão grata!

Tudo quanto nelle vejo

Passa além do meu desejo,

E o discurso me arrebata.

He de marmore, e de jaspe

O soberbo frontespicio:

He todo por dentro d'ouro,

E a hum tão rico tesouro

Inda excede o artificio.

As janellas não se adornão

De sedas de finas côres:

Em lugar de cortinados

Estão prezos, e enlaçados

Fastões de mimosas flores.

Em torno da Salla Augusta

Ardem dourados brazeiros;

Queimão rezinas, que estalão,

E postas em fumo exalão

Da Panchaya os gratos cheiros.

Ao pé do Throno os seus Genios

Alegres hymnos entoão:

Danção as Graças formosas;

E aqui as horas gostosas

Em vêz de correrem, vôão.

Estão sobre o pavimento,

Igualmente reclinados

Nos collos de seus amores,

Os grandes Reis, e Pastores

De frescas rosas coroados.

Mal o acôrdo restauro,

(Me diz, o Moço risonho:)

Como ainda não reparas

Em tantas cousas tão raras,

De que este Templo componho?

Sabes a historia de Jove?

Aqui tens o manso Touro;

Tens o Cisne decantado;

A Velha em que foi mudado,

Com a grossa chuva d'ouro.

Applica, Dirceo, agora

Os olhos para esta parte:

Aqui tens o verde Louro,

Que inda estima o Pastor louro,

E a Rede, que enlaça a Marte.

Vês este Arco destramente

De branco marfim ornado?

Á Casta Deosa servia,

E o perdêo quando dormia

Do gentil Pastor ao lado.

Vês esta Lyra? com ella

Tira Orpheo ao bem querido Dos infernos aonde estava.

Vês este Faról? guiava

Ao meu nadador de Abydo.

Vês estas duas Espadas

Ainda de sangue cheias?

A Thysbe, e a Dido matárão;

E os fortes pulsos armárão

De Pyramo, e mais de Eneas.

Sabes quem vai no Navio,

Que nesse mar se levanta?

He Theseo. Vês esse Pomo?

He de Cydippe, assim como

São aquelles de Atalanta.

Vê agora estes retratos,

Que destros pinceis fizerão:

Ah! que pinturas divinas!

Todos são das Heroinas,

Que mais victorias me dérão.

Repara nesse semblante,

He o semblante de Helena:

Lá se avista a Grega Armada,

E aqui de Troya abrazada

Se mostra a funesta scena.

Vês est'outra formosura?

He a bella Deidamía;

Lá tem Achilles ao lado,

De huma saia disfarçado

Como com ella vivia.

Cleópatra he quem se segue:

Alli tens lançando a linha

Marco Antonio socegado,

Ao tempo em que Augusto irado,

Com armada mão caminha.

Aqui Hermes se figura:

Vê hum Sabio dos maiores,

Qual infame delinquente,

Ir desterrado sómente

Por contar os seus louvores.

Este he de Omphale o retrato:

Aqui tens (quem o diria!)

Ao grande Hercules sentado

Com as mais damas no estrado,

Onde em seu obsequio fia.

Anda agora a est'outra parte:

Conheces, Dirceo, aquella?

Onde váes? (lhe digo:) explica,

Que belleza aqui nos fica,

Sem fazeres caso della?

Ergo os olhos ponho a vista

Na imagem não explicada,

Ó quanto he digna de appreço!

Mal exclamo assim, conheço

Ser a minha doce amada.

O coração pelos olhos

Em terno pranto sahia,

E no meu peito saltava:

Disfarçado Amor, olhava

Para mim a furto, e ria.

Depois de passado tempo,

A mim se chega, e me aballa;

Desperto de tanto assombro:

Elle bate no meu hombro,

E assim affavel me falla.

Sim, caro Dirceo, he esta

A divina formosura,

Que te destina Cupido;

Aqui tens o laço urdido

Da tua immortal ventura.

O Numen, Dirceo, o Numen

Que aos trabalhos de hum humano

Desta sorte felicita,

Não he, como se accredita,

Não he hum Numen tyranno.

Olha se a cega Fortuna

De tudo quanto se cria,

Ou nos mares, ou na terra,

Em o seu thesouro encerra

Outro bem de mais valia?

Lizas faces côr de rosa,

Brancos dentes, olhos bellos, Grossos beiços encarnados,

Pescoço, e peitos nevados,

Negros e finos cabellos;

Não vale mais, que cingires

Co' braço de sangue immundo

Na cabeça o verde louro?

Do que teres montes d'ouro?

Do que dares leis ao mundo?

Ah! ensina, sim ensina

Ao vil mortal atrevido,

E ao peito que adora terno,

Que tem para hum Inferno,

Para o outro hum Ceo, Cupido.

Ao resto Amor me convida;

Eu chorando a mão lhe beijo:

E lhe digo, Amor, perdôa

Não seguir-te; pois não vôa

A vêr mais o meu dezejo.