Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 35 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra III.

 

 

Succede, Marilia bella,

Á medonha noite o dia:

A estação chuvosa e fria,

Á quente secca estação.

Muda-se a sorte dos tempos;

Só a rainha sorte não?

Os troncos, nas Primaveras,

Brotão em flores viçosos;

Nos Invernos escabrosos

Largão as folhas no chão.

Muda-se a sorte dos troncos;

Só a minha sorte não?

Aos brutos, Marilia, cortão

Armadas redes os passos;

Rompem depois os seus laços,

Fogem da dura prisão.

Muda-se a sorte dos brutos;

Só a minha sorte não?

Nenhum dos homens conserva

Alegre sempre o seu rosto;

Depois das penas vem gosto,

Depois do gosto afflicção.

Muda-se a sorte dos homens;

Só a minha sorte não?

Aos altos Deoses movêrão

Soberbos Gigantes guerra;

No mais tempo o Ceo, e a Terra

Lhes tributa adoração.

Muda-se a sorte dos Deoses;

Só a minha sorte não?

Hade, Marilia, mudar-se

Do destino a inclemencia:

Tenho por mim a innocencia,

Tenho por mim a razão.

Muda-se a sorte de tudo;

Só a minha sorte não?

O tempo, ó bella, que gasta

Os troncos, pedras, e o cobre,

O véo rompe, com que encobre

Á verdade a vil traição.

Muda-se a sorte de tudo;

Só a minha sorte não?

Qual eu sou verá o mundo,

Mais me dará do que eu tinha,

Tornarei a ver-te minha.

Que feliz consolação!

Não ha de tudo mudar-se,

Só a minha sorte não.