Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 42 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra X.

 

Arde o velho barril, arde a cabeça,

Em honra de João na larga rua;

O credulo Mortal agora indaga,

Qual seja a sorte sua?

Eu não tenho alcaxofra, que á luz chegue,

E nella orvalhe o Ceo de madrugada,

Para ver se rebentão novas folhas,

Aonde foi queimada.

Tambem não tenho hum ovo, que despeje

Dentro de hum cópo d'agua, e possa nella Fingir Palacios grandes, altas Torres,

E huma Náo á véla.

Mas, ah! em bem me lembre: eu tenho ouvido

Que na boca hum bochecho d'agoa tome, E atráz de qualquer porta attento esteja,

Até ouvir hum nome.

Que o nome, que primeiro ouvir, he esse

O nome, que ha de ter a minha amada:

Pode verdade ser, se fôr mentira,

Tambem não custa nada.

Vou tudo executar, e de repente

Ouvi dizer o nome de Filena:

Despejo logo a boca: ah! não sei como

Não morro alli de pena!

Apparece Cupido: então soltando

Em ar de zombaria huma risada.

E que tal, me pergunta, esteve a peça?

Não foi bem pregada?

Eu já te disse, que Marilia he tua:

Tu fazes do meu dito tanta conta,

Que vais acreditar, o que te ensina

Velha mulher já tonta.

Humilde lhe respondo: quem debaixo

Do açoite da Fortuna afflito geme,

Nas mesmas coisas, que só são brinquedos,

Se agoirão males, teme.