Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 52 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XX.

 

E me visses com teus olhos

Nesta masmorra mettido;

De mil idéas funestas,

E cuidados combatido:

Qual seria, ó minha bella,

Qual seria o teu pezar?

Á força da dôr cedêra;

E nem estaria vivo,

Se o menino Deos vendado,

Extremoso, e compassivo,

Com o nome de Marilia

Não me viesse animar.

Deixo a cama ao romper d'alva;

O meio dia tem dado,

E o cabello inda flutua

Pelas costas desgrenhado.

Não tenho valor, não tenho;

Nem para de mim cuidar.

Diz-me Cupido: E Marilia;

Não estima esse cabello?

Se o deixas perder de todo

Não se ha de enfadar ao vêllo?

Suspiro pego no pente,

Vou logo o cabello atar.

Vem hum taboleiro entrando

De varios manjares cheio,

Põe-se na meza a toalha,

E eu pensativo passeio:

De todo o comer esfria,

Sem nelle poder tocar.

Eu entendo que matar-te,

Diz Amor, te tens proposto;

Fazes bem: terá Marilia

Desgosto sobre desgosto.

Qual enfermo c'o remedio

Me afflijo, mas vou jantar.

Chegão as horas Marilia,

Em que o Sol já se tem posto,

Vem-me á memoria que nellas

Via á janella o teu rosto:

Reclino na mão a face

E entro de novo a chorar.

Diz-me Cupido: Já basta,

Já basta, Dirceo, de pranto;

Em obsequio de Marilia

Vai erguer teu doce canto. Pendem as fontes dos olhos,

Mas eu sempre vou cantar.

Vem o Forçado accender-me

A velha çuja candêa;

Fica, Marilia, a masmorra

Inda mais triste, e mais fêa.

Nem mais canto, nem mais posso

Huma só palavra dar.

Diz-me Cupido: São horas

De escrever-se o que está feito;

Do azeite, e da fumaça

Huma nova tinta ageito,

Tomo o páo, que penna finge,

Vou as Lyras copiar.

Sem que chegue o leve sono

Canta o Gallo a vez terceira;

Eu digo ao Amor; que fico

Sem deitar-me a noite inteira:

Faço mimos, e promessas

Para elle me acompanhar.

Elle diz que em dormir cuide,

Que hei-de ver Marilia em sonho;

Não respondo huma palavra,

A dura cama componho,

Apago a triste candêa,

E vou-me logo deitar.

Como póde a taes cuidados

Risistir, ó minha Bella,

Quem não tem de Amor a graça?

Se eu que vivo á sombra della

Inda vivo desta sorte,

Sempre triste a suspirar?