Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 44 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XII.

 

Ah, Marilia, que tormento

Não tens de sentir saudosa!

Não podem ver os teus olhos

A campina deleitosa,

Nem a tua mesma Aldêa,

Que tyrannos não proponhão

Á inda inquieta idéa

Huma imagem de afflição.

Mandarás aos surdos Deoses

Novos suspiros em vão.

Quando levares, Marilia,

Teu ledo rebanho ao prado

Tu dirás: aqui trazia

Dirceo tambem o seu gado.

Verás os sitios ditosos

Onde, Marilia, te dava,

Doces beijos amorosos

Nos dedos da branca mão.

Mandarás aos surdos Deoses

Novos suspiros em vão.

Quando á janella sahires

Sem quereres, descuidada,

Tu verás, Marilia, a minha

E minha pobre morada.

Tu dirás então comtigo:

Alli Dirceo esperava

Para me levar comsigo:

E alli soffreo a prisão.

Mandarás aos surdos Deoses

Novos suspiros em vão.

Quando vires igualmente

Do caro Glauceste a choça,

Onde alegre se juntavão

Os pouco da escolha nossa,

Pondo os olhos na varanda

Tu dirás, de mágoa chêa:

Todo o congresso alli anda,

Só o meu Amado não.

Mandarás aos surdos Deoses

Novos suspiros em vão.

Quando passar pela rua

O meu companheiro honrado,

Sem que me vejas com elle

Caminhar emparelhado,

Tu dirás: não foi tyranna

Sómente comigo a sorte;

Tambem cortou deshumana

A mais fiel união.

Mandarás aos surdos Deoses

Novos suspiros em vão.

N'uma masmorra mettido

Eu não vejo imagens destas,

Imagens, que são por certo

A quem adora funestas.

Mas se existem separadas

Dos inchados rôxos olhos,

Estão, que he mais, retratadas

No fundo do coração.

Tambem mando aos surdos Deoses

Tristes suspiros em vão.