Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 55 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XXIII.

 

Não praguejes, Marilia, não praguejes

A justiceira mão que lança os ferros:

Não traz de balde a vingadora espada;

Deve punir os erros.

Virtudes de Juiz, virtudes de homem

As mãos se derão, e em seu peito morão. Mandão prender ao Réo austera a boca,

Porém seus olhos chorão.

Se á innocencia denigre a vil calumnia

Que culpa aquelle tem que applica a penna. Não he o Julgador, he o processo,

E a lei quem nos condemna.

Só no Averno os Juizes não recebem

Accusação, nem prova de outro humano; Aqui todos confessão suas culpas,

Não póde haver engano.

Eu vejo as Furias affligindo aos tristes:

Huma o fogo chega, outra as serpes move; Todos maldizem sim a sua estrella,

Nenhum accusa a Jove.

Eu tambem inda adoro ao grande Chefe,

Bem que a prizão me dá que eu não mereço. Qual eu sou, minha bella, não me trata,

Trata-me qual pareço.

Quem suspira, Marilia, quando pune

Ao vassallo que julga delinquente;

Que gosto não terá podendo dar-lhe

As honras de innocente?