Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 47 de 90

Páginas do PDF

Marilia de Dirceo

Lyra XV.

 

Eu, Marilia, não fui nenhum Vaqueiro;

Fui honrado Pastor da tua Aldêa;

Vestia finas lãns, e tinha sempre

A minha chóça do preciso chêa.

Tirarão-me o casal, e o manso gado,

Nem tenho a que me encoste hum só cajado.

Para ter, que te dar, he que eu queria

De mór rebanho ainda ser o dono;

Prezava o teu semblante, os teus cabellos Ainda muito mais que hum grande Throno. Agora que te offerte já não vejo

Além de hum puro amor, de hum são desejo.

Se o rio levantado me causava

Levando a sementeira prejuiso,

Eu alegre ficava apenas via

Na tua breve boca hum ar de riso.

Tudo agora perdi; nem tenho o gosto

De ver-te ao menos compassivo o rosto.

Propunha-me dormir no teu regaço

As quentes horas da comprida sésta,

Escrever teus louvores nos olmeiros,

Toucar-te de papoilas na floresta.

Julgou o justo Ceo, que não covinha

Que a tanto gráo subisse a gloria minha.

Ah, minha bella, se a Fortuna volta,

Se o bem que já perdi alcanço, e provo;

Por essas brancas mãos, por essas faces Te juro renascer hum homem novo;

Romper a nuvem que os meus olhos cerra, Amar no Ceo a Jove, e ati na terra.

Fiadas comprarei as ovelhinhas,

Que pagarei dos poucos do meu ganho;

E dentro em pouco tempo nos veremos

Senhores outra vez de hum bom rebanho. Para o contagio lhe não dar sobeja

Que as affague Marilia, ou só que as veja.

Se não tivermos lans, e pelles finas,

Podem mui bem cobrir as carnes nossas As pelles dos cordeiros mal cortidas,

E os pannos feitos com as lans mais grossas. Mas ao menos será o teu vestido

Por mãos de Amor, por minhas mãos cozido.

Nós iremos pescar na quente sésta

Com canas, e com cêstos os peixinhos:

Nós iremos caçar nas manhãs frias

Com a vara envisgada os passarinhos;

Para nos divertir faremos quanto

Reputa o varão sabio, honesto, e santo.

Nas noites de serão nos sentaremos

C'os filhos se os tivermos á fogueira;

Entre as falsas historias, que contares,

Lhes contarás a minha verdadeira:

Pasmados te ouviráõ; eu entre tanto

Ainda o rosto banharei de pranto.

Quando passarmos juntos pela rua

Nos mostraráõ c'o dedo os mais Pastores, Dizendo huns para os outros: olha os nossos Exemplos da desgraça, e sãos amores.

Contentes viviremos desta sorte,

Até que chegue a hum dos dois a morte.