Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 40 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra VIII.

 

 

Eu vejo, ó minha bella, aquelle Numen,

A quem o nome derão de Fortuna,

Pega-me pelo braço,

E com voz importuna

Me diz que mova o passo;

Que entre no grande Templo, em [~q] se encerra,

Quanto o destino manda,

Que ella obre sobre a terra.

Que coizas portentosas nelle encontro!

Eu vejo a pobre fundação de Roma,

Vejo-a queimar Carthago;

Vejo que as gentes doma;

E vejo o seu estrago.

Lá florece o poder do Assyrio Povo:

Aqui os Medos crescem

E os perde hum braço novo.

Então me diz a Deosa: E que pertendes?

Todas estas Medalhas vêr agora?

Ah! não, não sejas louco!

Espaço de annos fôra

Para isto ainda pouco.

Deixo estranhos successos; vem comigo,

Verás quanto inda deve

Acontecer comtigo.

Levou-me aonde estava a minha historia,

Que toda me explicou com medo, e arte.

Tirei-te libras de oiro

Me diz, e quero dar-te

Todo aquelle thesoiro.

Não suspira por bens hum peito nobre:

Sevéro lhe respondo.

Vivo affeito a ser pobre.

Aqui me enruga a Deosa irada a testa;

E fica sem fallar hum breve espaço.

Alegra, alegra o rosto,

Prosegue, alli te faço

Restituir o posto.

Respondo com ar de mofa, e tom sereno.

Conheço-te, Fortuna,

Posso morrer pequeno.

Aqui te dou, me diz, a tua amada.

Então me banho todo de alegria

Cuidei, me torna a cega,

Que essa alma não queria

Nem esta mesma entrega.

He esse o bem, respondo, que me move;

Mas este bem he santo,

Vem só da mão de Jove.

Queria mais fallar; eu insoffrido

Desta maneira rompo os seus accentos:

Basta, Fortuna, basta;

Estes breves momentos

Lá noutras coizas gasta;

Da minha sorte nada mais contemplo.

E chamando Marilia

Suspiro, e deixo o Templo.