Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 2 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra III.

 

 

De amar, minha Marilia, a formosura

Não se podem livrar humanos peitos.

Adorão os Heróes, e os mesmos brutos

Aos grilhões de Cupido estão sujeitos.

Quem, Marilia, despreza huma belleza,

A luz da razão precisa,

E se tem discurso, pisa

A Lei, que lhe ditou a Natureza.

Cupido entrou no Ceo. O grande Jove

Huma vez se mudou em chuva de ouro:

Outras vezes tomou as varias fórmas

De General de Thebas, velha, e touro,

O proprio Deos da Guerra deshumano

Não viveo de amor illeso;

Quiz a Venus, e foi prezo

Na rede, que lhe armou o Deos Vulcano.

Se amar huma belleza se desculpa

Em quem ao proprio Ceo, e terra move;

Qual he a minha gloria, pois igualo, Ou excedo no amor ao mesmo Jove?

Amou o Pai dos Deoses Soberano

Hum semblante peregrino:

Eu adoro o teu divino,

O teu divino rosto, e sou humano.