Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 9 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra X.

 

Se existe hum peito,

Que izento viva

Da chamma activa,

Que accende Amor.

Ah! não habite

Neste montado;

Fuja apressado

Do vil traidor.

Corra, que o Impio

Aqui se esconde:

Não sei aonde;

Mas sei o que vi.

Traz novas settas,

Arco robusto;

Tremi de susto;

Em vão fugi.

Eu vou mostrar-vos,

Tristes mortaes,

Quantos signaes O Impio tem.

Oh! como he justo,

Que todo o humano

Hum tal tyranno

Conheça bem!

No corpo ainda

Menino existe:

Mas quem resiste

Ao braço seu?

Ao negro Inferno

Levou a guerra:

Vencêo a terra,

Vencêo o Ceo.

Já mais se cobrem

Seus membros bellos;

E os seus cabellos

Que lindos são!

Vendados olhos,

Que tudo alcanção,

E já mais lanção

A setta em vão.

As suas faces

São côr da neve;

E a bocca breve

Só rizos tem.

Mas, ah! respira

Negros venenos, Que nem ao menos

Os olhos vem.

Aljava grande

Dependurada,

Sempre atacada

De bons farpões.

Fere com estas

Agudas lanças,

Pombinhas mansas,

Bravos leões.

Se a setta falta

Tem outra prompta,

Que a dura ponta

Já mais torcêo.

Ninguem resiste

Aos golpes della:

Marilia bella

Foi quem lha dêo.

Ah! não sustente

Dura peleija,

O que deseja

Ser vencedor.

Fuja, e não olhe,

Que só fugindo

De hum rosto lindo,

Se vence Amor.