Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 68 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra III.

 

Tu não verás, Marilia, cem captivos

Tirarem o cascalho, e a rica terra,

Ou dos cercos dos rios caudelosos,

Ou da minada Serra.

Não verás separar ao habil negro

Do pezado esmeril a grossa arêa;

E já brilharem os granetes de ouro,

No fundo da batêa.

Não verás derrubar os virgens matos,

Queimar as capoeiras inda novas,

Servir de adubo á terra a fertil cinza,

Lançar os grãos nas cóvas.

Não verás enrolar negros pacotes

Das secas folhas do cheiroso fumo;

Nem espremer entre as dentadas rodas

Da doce cana o sumo.

Verás em cima da espaçosa meza

Altos volumes de enredados feitos; Ver-me-has folhear os grandes livros,

E decidir os pleitos.

Em quanto revolver os meus Consultos,

Tu me farás gostosa companhia

Lendo os fastos da sabia, mestra Historia,

Os Cantos da Poesia.

Lerás em alta Voz a imagem bella;

Eu vendo que lhe dás o justo appreço;

Gostoso tornarei a lêr de novo

O cansado processo.

Se encontrares louvada huma belleza,

Marilia, não lhe envejes a ventura,

Que tens quem leve á mais remota idade

A tua formosura.