Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 20 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XXI.

 

Não sei, Marilia, que tenho,

Depois que vi o teu rosto;

Pois quanto não he Marilia,

Já não posso ver com gosto.

Noutra idade me alegrava,

Até quando conversava

Com o mais rude vaqueiro:

Hoje, ó bella, me aborrece

Inda o trato lizongeiro

Do mais discreto pastor.

Que effeitos são os que sinto!

Serão effeitos de amor?

Sáio da minha cabana

Sem reparar no que faço;

Busco o sitio aonde moras,

Suspendo defronte o passo.

Fito os olhos na janella,

Aonde, Marilia bella,

Tu chegas ao fim do dia;

Se alguem passa, e te saúda, Bem que seja cortezia,

Se accende na face a côr.

Que effeitos são os que sinto!

Serão effeitos de Amor?

Se estou, Marilia, comtigo,

Não tenho hum leve cuidado;

Nem me lembra, se são horas

De levar á fonte o gado.

Se vivo de ti distante,

Ao minuto, ao breve instante,

Finge hum dia o meu desgosto:

Já mais, Pastora, te vejo

Que em teu semblante composto

Não veja graça maior.

Que effeitos são os que sinto!

Serão effeitos de Amor?

Aonde já com o juizo;

Marilia, tão perturbado,

Que no mesmo aberto sulco

Metto de novo o arado.

Aqui no centêo pégo,

Noutra parte em vão o cégo:

Se alguem comigo conversa,

Ou não respondo, ou respondo

Noutra coiza tão diversa,

Que nexo tão tem menor.

Que effeitos são os que sinto!

Serão effeitos de Amor?

Se geme o bufo agoureiro

Só Marilia me desvella:

Enche-se o peito de magoa,

E não sei a causa della.

Mal durmo, Marilia, sonho,

Que féro leão medonho

Te devora nos meus braços:

Gella-se o sangue nas veias.

E sólto do somno os laços

Á força da immensa dor.

Ah! que os effeitos que sinto

Só são effeitos de Amor.