Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 33 de 90

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Marilia de Dirceo

Marilia de Dirceo Lyra I.

MARILIA DE DIRCEO.

 

 

POR T.A.G.

 

SEGUNDA PARTE.

LISBOA: 1824.

Na Typ. de J.F.M. de Campos.

MARILIA DE DIRCEO

LYRA I.

 

Já não cínjo de loiro a minha testa,

Nem sonoras Canções o Deos me inspira:

Ah! que nem me resta

Huma já quebrada,

Mal sonora Lyra!

Mas neste mesmo estado em que me vejo,

Pede, Marilia, Amor que vá cantar-te:

Cumpro o seu desejo;

E ao que resta supra

A paixão, e a arte.

A fumaça, Marilia, da candêa,

Que a molhada parede ou çuja, ou pinta;

Bem que tosca, e fêa,

Agora me póde

Ministrar a tinta.

Aos mais preparos o discurso apronta:

Elle me diz, que faça no pé de huma

Má laranja ponta,

E delle me sirva

Em lugar de pluma.

Perder as uteis horas não, não devo

Verás, Marilia, huma idéa nova:

Sim, eu já te escrevo,

Do que esta alma dita

Quanto amor approva.

Quem vive no regaço da ventura,

Nada obra em te adorar, que assombro faça:

Mostra mais ternura

Quem te estima, e morre

Nas mãos da desgraça.

Nesta cruel masmorra tenebrosa

Ainda vendo estou teus olhos bellos,

A testa formosa,

Os dentes nevados,

Os negros cabellos.

Vejo, Marilia, sim, e vejo ainda

A chusma dos Cupidos, que pendentes

Dessa bôcca linda,

Nos ares espalhão

Suspiros ardentes.

Se alguem me perguntar onde eu te vejo,

Responderei—no peito—que huns Amores

De casto desejo

Aqui te pintárão,

E são bons Pintores.

Mal meus olhos te virão, ah! nessa hora

Teu Retrato fizerão, e tão forte,

Que entendo, que agora

Só póde apagallo

O pulso da Morte.

Isto escrevia, quando, ó Céos, que pejo!

Descubro a lêr-me os versos o Deos loiro.

Ah! dá-lhes hum beijo,

E diz-me que valem

Mais que letras de oiro.