Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 24 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XXV.

 

O cego Cupido hum dia

Com os seus Genios fallava,

Do modo que lhe restava

De captivar a Dirceo.

Depois de larga disputa,

Hum dos Genios mais sagazes

Este conselho lhe dêo:

As settas mais aguçadas,

Como se em roxa batessem,

Dão nos seus peitos, e descem

Todas quebradas ao chão.

Só as graças de Marilia

Podem vencer hum tão duro,

Tão izento coração.

A fortuna desta empreza

Consiste em armar-se o laço,

Sem que sinta ser o braço,

Que lho prepara, de Amor.

Que elle vive como as aves, Que já deixárão as pennas

No visco do Caçador.

Na força deste conselho

O raivoso Deos socega,

E á tropa a honra entrega

De o fazer executar.

Todos pertendem ganhá-la,

Batem as azas ligeiros,

E vão as armas buscar.

Os primeiros se occultárão

Da Deosa nos olhos bellos;

Qual se enlaçou nos cabellos;

Qual ás faces se prendêo.

Hum amorinho cansado

Cahio dos labios ao seio,

E nos peitos se escondêo.

Outro Genio mais astuto

Este novo ardil alcança,

Muda-se n'uma criança

De divino parecer.

Esconde as azas, e a venda;

Esconde as settas, e quanto

Póde dá-lo a conhecer.

Ella que vê hum menino

Todo de graças cuberto,

Tão risonho, e tão esperto

Alli sózinho brincar.

A elle endireita os passos; Finge Amor ter medo, e a Deosa

Mais se empenha em lhe pegar.

Ella corria chamando;

Elle fugia, e chorava:

Assim forão onde estava

O descuidado Pastor.

Este, mal vio a belleza,

E o gentil menino, entende

A malicia do traidor.

Põe as mãos sobre os ouvidos,

Cerra os olhos, e constante

Não quer ver o seu semblante,

Não o quer ouvir fallar.

Qual Ulysses n'outra idade

Para illudir as Serêas

Mandou tambores tocar.

Cupido, que a empreza via,

Julga o intento frustrado,

E de raiva transportado

O corpo no chão lançou.

Traçou a lingoa nos dentes;

Mettêo as unas no rosto,

E os cabellos arrancou.

O Genio, que se escondia

Entre os peitos da Pastora,

Erguêo a cabeça fóra,

E o successo conhecêo.

Deixa o socego em que estava, E vai ligeiro metter-se

No peito do bom Dirceo.

Apenas c'o brando peito

Lhe tocou a neve fria,

Com o calor que trazia

Lhe abrazou o coração.

Dá o Pastor hum suspiro,

Abre os seus olhos, e sólta

Do apertado ouvido a mão.

Logo que virão os Genios

Ao triste Pastor disposto

Para ver o lindo rosto,

Para as palavras ouvir.

Cada hum as armas toma,

Cada hum com ellas busca

Seu terno peito ferir.

Com os cabellos da Deosa

Lhe fórma hum Cupido laços,

Que lhe segurão os braços,

Como se fossem grilhões.

O Pastor já não resiste;

Antes beija satisfeito

As suas doces prizões.