Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 41 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra IX.

 

 

A estas horas

Eu procurava

Os meus Amores;

Tinhão-me inveja

Os mais Pastores.

A porta abria,

Inda esfregando

Os olhos bellos,

Sem flor, nem fitta

Nos seus cabellos:

Ah! que assim mesmo

Sem compostura,

He mais formosa,

Que a estrella d'alva;

Que a fresca rosa.

Mal eu a via,

Hum ar mais leve,

(Que doce effeito!)

Já respirava

Meu terno peito.

Do cerco apenas

Soltava o gado,

Eu lhe amimava

Aquella ovelha

Que mais amava.

Dava-lhe sempre

No rio, e fonte,

No prado, e selva,

Agua mais clara,

Mais branda relva.

No cóllo a punha,

Então brincando

A mim a unia;

Mil coizas ternas

Aqui dizia.

Marilia vendo

Que eu só com ella

He que fallava;

Ria-se a furto,

E disfarçava.

Desta maneira

Nos castos peitos,

De dia, em dia

A nossa chamma

Mais se accendia.

Ah! quantas vezes

No chão sentado,

Eu lhe lavrava

As finas rócas,

Em que fiava?

Da mesma sorte

Que á sua amada,

Que está no ninho,

Fronteiro canta

O passarinho.

Na quente sésta,

Della defronte,

Eu me entretinha

Movendo o ferro

Da sanfoninha.

Ella por dar-me

De ouvir o gosto,

Mais se chegava:

Então vaidoso

Assim cantava:

Não ha Pastora,

Que chegar possa

Á minha bella;

Nem quem me iguale

Tambem na estrella:

Se Amor concede

Que eu me recline No branco peito,

Eu não invejo

De Jove o leito:

Ornão seu peito

As sãs virtudes,

Que nos namorão;

No seu semblante

As Graças morão.

Assim vivia:

Hoje em suspiros

O canto mudo:

Assim, Marilia,

Se acaba tudo.