Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 49 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XVII.

 

Dirceo te deixa, ó bella,

De padecer cançado:

Frio suor já banha

Seu rosto descórado;

O sangue já não gyra pela vêa,

Seus pulsos já não batem;

E a clara luz dos olhos se bacêa:

A lagrima sentida já lhe corre;

Já pára a convulsão, suspira, e morre.

Seu espirito chega

Onde se pune o erro:

Late o cão, e se lhe abrem

Grossos portões de ferro.

Aos severos Juizes se apresenta;

E com sentidas vozes

Toda a sua tragedia representa:

Enche-se de ternura, e novo espanto

O mesmo inexoravel Rhadamantho.

Abre hum pasmado a boca,

E a pedra não despede;

Outro já não se lembra

Da fome, e mais da sede:

Descança o curvo bico, e a garra impia

Negro abutre esfaimado:

Nem a roca medonha a Parca fia,

Até as mesmas Furias inclementes

Deixão cahir das unhas as serpentes.

Já votão os Juizes;

E o Rei Plutão lhe ordena

Deixe o sitio, em que ficão

Almas dignas de pena.

Já sahe do escuro Reino, e da memoria

Lhe passa tudo quanto

Ou póde dar-lhe mágoa, ou dar-lhe gloria. Só, bem que o gosto as turvas agoas tome, Inda, Marilia, inda diz teu nome.

Entra já nos Elysios

Campinas venturosas,

Que mansos rios cortão,

Que cobrem sempre as rosas.

Escuta o canto das sonoras aves,

E bebe as agoas puras,

Que o mel, e de que o leite mais suaves. Aqui, diz elle, espero a minha bella,

Aqui contente viverei com ella.

Aqui… porém aonde

Me leva a dôr activa?

He illusão desta alma.

Jove inda quer que eu viva.

Eu devo sim gosar teus doces laços;

E em paga dos meus males

Devo morrer, Marilia, nos teus braços.

Então eu passarei ao Reino amigo;

E tu irás despois lá ter comigo.