Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 60 de 90

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Marilia de Dirceo

Lyra XXVIII.

 

Deten-te, vil humano,

Não espremas cicutas

Para fazer-me damno.

O çumo que ellas dão he pouco forte,

Procura outras bebidas,

Que apressem mais a morte.

Desce ao Reino profundo,

Ajunta ahi venenos,

Que nunca visse o mundo;

Traze o negro licôr, que tem nos dentes,

Nos dentes retorcidos

As raivosas serpentes.

Cachopo levantado,

Que pôz a Natureza,

Dentro no Mar salgado,

Não se abala no meio da tormenta,

Bem que huma onda, e outra onda

Sobre elle em flor rebenta.

Arvore, que na terra

Ás robustas raizes,

Buscando o centro, afferra,

Não teme ao furacão mais violento;

E menos se se deixa

Vergar do rijo vento.

Sou tronco, e rócha, ó bella,

Que açoita o Sul que brama,

E o Mar, que se encapella:

Não temas que do rosto a côr se mude:

Vence as róchas, e os troncos

A sólida Virtude.

A maior desventura

He sempre a que nos lança

No horror da sepultura:

O cobarde a morrer tambem caminha;

Com que males não póde

Huma alma como a minha?