Marilia de Dirceo

Tomás António Gonzaga · Capítulo 14 de 90

Páginas do PDF

Marilia de Dirceo

Lyra XV.

 

A minha bella Marilia

Tem de seu hum bom thesouro,

Não he, doce Alceo, formado

Do buscado

Metal louro.

He feito de huns alvos dentes,

He feito de huns olhos bellos,

De humas faces graciosas,

De crespos, finos cabellos;

E de outras graças maiores,

Que a natureza lhe dêo:

Bens, que valem sobre a terra,

E que tem valor no Ceo.

Eu posso romper os montes,

Dar ás correntes desvios,

Pôr cercados espaçosos

Nos caudosos

Turvos rios.

Posso emendar a ventura

Ganhando astuto a riqueza;

Mas, ah! charo Alceo, quem póde

Ganhar huma só belleza

Das bellezas, que Marilia

No seu thesouro metêo?

Bens, que valem sobre a terra,

E que tem valor no Ceo.

Da sorte, que vive o rico

Entre o fausto alegremente,

Vive o guardador de gado

Apoucado,

Mas contente.

Beije pois torpe avarento

As arcas de barras chêas:

Eu não beijo os vís thesouros;

Beijo as douradas cadêas,

Beijo as settas, beijo as armas

Com que o cego Amor vencêo:

Bens, que valem sobre a terra,

E que tem valor no Ceo.

Ama Apollo o fero Marte,

Ama, Alceo, o mesmo Jove:

Não he, não, a vã riqueza,

Sim belleza,

Quem os move.

Posto ao lado de Marilia

Mais que mortal me contemplo:

Deixo os bens, que aos homens cegão,

Sigo dos Deoses o exemplo:

Amo virtudes, e dotes;

Amo em fim, prezado Alceo,

Bens, que valem sobre a terra,

E que tem valor no Ceo.